Vida de elétron
Belmiro
Wolski
Em meio a uma banda proibida em uma nuvem eletrônica, alguns elétrons conversam para passar o tempo.
- Este lugar está muito chato. Não há nada para fazer.
- Concordo - respondeu outro elétron -Isto aqui é uma prisão. Deviam acabar com essas malditas camadas de valência.
Um terceiro elétron entra na discussão:
- Pois eu logo vou sair daqui. Aposto todo dia na loteria eletrônica e
pretendo ganhar um fóton altamente energético. Com ele vou dar um salto
quântico e me tornar um elétron livre.
O primeiro elétron, esboçando um sorrisinho de deboche, rebate:
- Vã esperança. Você sabe bem que o tunelamento quântico é muito difícil de acontecer.
Ouvindo a conversa acirrada dos colegas, um velho elétron, segurando
sua bengala, que com dificuldade mantinha seu spin alinhado, esbanjando
sabedoria intervém:
- Há milhões de unidades de tempo estou confinado neste lugar. Já fiz
parte do tecido de estranhas criaturas como os dinossauros. Já vi muitas
coisas estranhas acontecerem. Vocês jovens, só pensam em liberdade.
Pois saibam que a vida lá fora é muito difícil, muito perigosa. A
qualquer momento um elétron pode ter seu fim decretado pelo choque com
outras partículas ou radiações energéticas. Além do mais, a vida de um
elétron livre não é permeada de glórias. Não fosse assim , eles não
vivam tentando se recombinar.
Enquanto isso, em um condutor, um bando de elétrons também jogam conversa fora.
- Não estou legal hoje. Minha função de onda me diz que a
probabilidade de eu estar com vocês aqui neste momento é quase zero.
Entretanto eu estou aqui. Deve ser por isso que não estou me sentindo
bem.
- Que nada - refuta um colega - Também senti isso quando me apaixonei
por um próton em um colisor de partículas. Quase perdi minha carga
elétrica por ele.
- É, mas eu não estou apaixonado. Além do mais, não costumo freqüentar esses lugares.
- Por que ? Tem medo das bizarras partículas que por lá aparecem?
- Com certeza! Um amigo meu certa vez deu de cara com um pósitron. Foi
aquela explosão de energia. Emitiu um fóton e acabou reencarnando como
outro elétron. Nunca mais nos vimos.
Nesse ínterim, um elétron ofegante chega em polvorosa.
- Pessoal! Estamos sendo observados. Estão tentando medir nossa posição e quantidade de movimento.
- Essa turma não aprende mesmo!- exclama o elétron líder do grupo -
Todos comigo agora. Vamos usar o plano B. Quando eles tentarem medir
nossa posição, todos usam sua natureza ondulatória para confundí-los. Em
seguida, todos andam em zigue-zague para impossibilitar a medição da
velocidade.
E assim foi feito. Novamente não se conseguiu medir com precisão a
posição e velocidade, preservando intacto o princípio da incerteza de
Heisenberg. Passado o susto, os elétrons se reúnem novamente para
comemorar o sucesso da operação.
- Valeu pessoal! Conseguimos novamente. No entanto, não
podemos baixar a retaguarda, pois com certeza eles irão tentar de novo.
Em meio a euforia, com alguns elétrons até emitindo alguns fótons, eis que de repente alguém grita:
- Oh não ! Lá vem um campo elétrico. Seremos arrastados novamente através das camadas de condução.
- Isto não é nada - retruca outro elétron - O pior será quando
tivermos que realizar trabalho através da resistência que certamente
encontraremos pelo caminho. Já estava até acostumado com essa boa vida.
- Animem-se colegas - grita um terceiro elétron, já sendo arrebatado
pelo campo elétrico - Pelo menos estaremos viajando em baixa velocidade e
não sentiremos o aumento relativístico de nossas massa com a
velocidade, o que certamente nos deixaria ainda mais cansados.
E assim, milhares de milhões de elétrons foram arrastados através do
condutor, cumprindo cada um sua missão de promover o curso natural do
continuum espaço-tempo.
E na banda proibida, o papo continua.
- Ei ! Quer fazer o favor de sair do meu lugar? Não sabe que não é
permitido dois elétrons ocuparem o mesmo nível de energia ao mesmo
tempo? Está pensando que é um bóson?
- Tudo bem - desculpa-se o elétron - Mas também não precisa ofender.
Conheço o princípio de exclusão de Pauli e sou férmion com muito
orgulho. Aliás, odeio aquela turma do spin integral.
- É, mas bem que você gosta de um fotonzinho de vez em quando para ficar mais excitado.
- Ora, é intrínseco da natureza. Mas que eles são metidos, são. Só
porque não têm massa e viajam na velocidade da luz se acham os maiorais.
Nem noção do tempo eles têm. Esquecem eles que durante a fase de alta
energia do universo eles eram mera parte integrante do bóson de Higgs.
Já os bósons W+, W- e Z0 da força fraca, os glúons e os gravítons são
gente boa. Talvez seja porque a gente não tem nenhum tipo de interação
com eles.
- Não sei porque sua implicância com os fótons. Que mal lhe fizeram?
- Pois bem, vou lhe contar - falou o elétron, alinhando seu spin -
Certa vez, ao receber um fóton, fiquei tão excitado que acabei tendo um
relacionamento íntimo com outro elétron. Logo em seguida, ele foi embora
para muito longe. Foi aí que os problemas começaram. Comecei a sentir
estranhas sensações. De repente meu spin realinhava sem a minha vontade e
estranhas forças se apoderavam de mim. Mais tarde, fiquei sabendo que o
elétron com o qual eu me relacionara também sentira as mesmas
sensações. Isto durou muito tempo e foi muito ruim. O velho elétron, que
é muito sábio, me disse que isso é comum. Que nós elétrons sentimos as
mesmas reações que os parceiros com os quais nos relacionamos em algum
momento, mesmo que eles estejam bem distantes. Esse mal é conhecido como
ação à distância. Dizem que até Einstein se recusava a acreditar nessa
coisa fantasmagórica.
Enquanto os elétrons continuam seu colóquio, um enorme campo elétrico
surge entre os extremos da estrutura molecular. É tão intenso que
tensiona os elétrons em relação ao núcleo. Apavorados, sem saber o que
está acontecendo, eles cedem à extrema força do campo elétrico, que
arrebata-os.
Estavam finalmente livres